| |
Constituição
do casal e o conflito
conjugal
As pesquisas atuais
sobre conjugalidade divergem das consagradas concepções de um par ideal, elas tratam dos aspectos relacionais do casal, ou seja, como as
inter-relações proporcionam a união ou a separação do par. Prado ao estudar a conjugalidade
nos processos de separação observou que “as pessoas podem
ser realmente conhecidas pelo modo como lidam com as separações”. Os mais
calmos podem se tornar coléricos, os rígidos podem se mostrar flexíveis, não
há uma regra ou condição de se prever como serão as reações durante a
união ou processo de separação, pois o conflito revive décadas de aprendizado,
de como cada um aprendeu e internalizou sua trajetória. Portanto, os conflitos conjugais
além de reeditarem os conflitos suscitam questões como: comunicacionais, culturais, econômicas, sociais,
profissionais, relacionais, familiares, sexuais, etc.
Com relativa freqüência uma questão aparece nos temas sobre a conjugalidade: como unir o que não foi
separado? Certas famílias impedem, inconscientemente, a emancipação dos filhos
e numa nova relação,
como namoro ou casamento, instala-se um dilema no qual o novo casal só pode existir
se não colocar em risco a rígida lógica
familiar, uma tendência que procura não modificar a família nuclear. Assim,
nestes casos, quando uma nova união se estabelece vários mecanismos passarão a atuar no sentido da não
alteração.
Uma união implica, invariavelmente, na despedida dos antigos vínculos, uma fase
permeada por sentimentos ambíguos de desamparo e que podem abalar
constituição da necessária cumplicidade
do casal. Assim, após a fase da paixão, da
elaboração das perdas de suas famílias de origem, é que o novo relacionamento
poderá se estabelecer de forma consistente. Mas, quando os vínculos anteriores estão muito fortes,
a nova união será dificultada.
Certamente
que o aprendizado da conjugalidade demanda dos ingredientes básicos inerentes
aos casais: amor, carinho, companheirismo, projeto em comum..., que auxilia e fortalece o casal, permitindo que
ultrapasse com maior facilidade as dificuldades. Este
contínuo aprendizado que o contato intimo proporciona, de se mostrarem mutuamente como verdadeiramente
são, fortalece a cumplicidade do casal e não importa como socialmente o casal se apresente, pois ao terem característica
de “unidade” adquirem força para crescerem.
Um dos sintomas mais
característicos nos relacionamentos (família, casal, etc.) é a falta de maleabilidade nas regras e a impossibilidade de troca nos
papéis: tudo é muito certinho e todos sabem exatamente como se comportar.
As mudanças não são permitidas e os
papéis são extremamente definidos não importa o tipo, pode ser brincalhão,
irreverente, ranzinza, zangado, atrapalhado, sedutor, etc. Durante a terapia cada um pode se deparar com suas crenças, mitos, verdades e histórias,
abrem-se possibilidades para as impossibilidades.
Nas épocas de crise alguns tendem a uma retomada de suas "verdades
fundamentais" e nestas estão as idéias imputadas pela sociedade, cultura
e família de origem. E, justamente, no confronto do âmbito social/cultural
com o familiar que se observa um
conjunto de idéias espraiadas por toda América-latina, que é expresso pelo fatalismo, no qual
a própria ação do sujeito não poderá modificar o seu destino. Tal
influência pode ser observada na tendência do sujeito remeter às
instâncias superiores (figuras de poder: professor, pai, juiz, padre, médico...) suas
responsabilidades e projetos de vida, se esquivando de tomar conta de sua vida. Uma situação que coloca em risco a formação do casal, pois tais tendências tendem a solapar
as tentativas de constituição de identidade e autonomia, necessárias à
cada um, ao casal e à nova família.
Referências
bibliográficas
PRADO, Luiz Carlos. Amor & violência nos casais e nas famílias.
Porto Alegre: UFRGS, 2004..
|