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As categorias e a terapia
As categorias não só permeiam a forma de organização cotidiana, como em muitos casos são elas a própria. E, de tão costumeiras constituem um ótimo campo para iniciar um estranhamento sobre as verdades e crenças, mesmo as mais arraigadas. A preocupação de como as categorias permeiam o cotidiano aparece em Soar Filho (2005) com uma interessante fala, de uma paciente, quanto a impossibilidade de não pertencer:
Uma outra preocupação com as categorizações aparece no livro As palavras e as coisas de Michel Foucault, que inicia convidando ao estranhamento daquilo que consideramos mais natural:
Como propõe Foucault, é desconcertante observamos algo que não condiz com nossa expectativa de tradução da realidade. Mas, as vivências existem para além das palavras e do o aprisionamento da lógica lingüística, elas restringem e conformam o sujeito de forma análoga às possibilidades designativas, que, paradoxalmente, constituem numa possibilidade de libertação e (re)construção. A linguagem ao trazer a possibilidade de inscrição das dissonâncias e dos estados limites, daqueles pontos que não estão nem lá nem cá, denota sua possibilidade criativa e modificadora. E, justamente nestas infinitas possibilidades de se designar algo, mesmo fora do convencionado, que se pode refletir sobre o vivenciado. Afinal, o que é esse algo que nos compele a traduzir em palavras aquilo que foi experienciado? Não tenho uma resposta, algumas vezes transito por idéias evolucionistas, como sendo a categorização e a designação compartilhada a própria possibilidade de sobrevivência do homus sapiens. Assim, o exercício humano, de milhões de anos de observação e comunicação, que permitiu o compartilhamento das idéias mais diretamente tangíveis como: folhas, caules, raízes, rizomas, flores, frutos... evoluiu para a capacidade reflexiva de entes abstratos da vivência humana, como: os sentimentos e os cenários futuros. Por outro lado e aproximando do que a psicanálise denominou de recalque*, estes infinitos caminhos designativos poderia, também, ser associado à dificuldade de acessar diretamente algumas vivências que remontam a coisas que não foram boas. Lembrando que a impossibilidade designativa é, também, uma forma de comunicação. Na terapia há a possibilidade transitar por estes outros inefáveis mundos, onde as idéias nem sempre fazem muito sentido e neste compartilhamento há o exercício de (re)tradução e (re)compreensão dos eventos da vida. E, estranhamente, muitas vezes, parece que ao final desses exercícios denominativos os sujeitos querem chegar a idéias muito simples como "isso é bom ou não é bom".
*Recalque > De forma simplificada, designa o processo de manter inconsciente as idéias que afetam o funcionamento psicológico, mas acaba por se converter em fonte de desprazer.
Referências bibliográficas
FOUCAULT, M. As palavras e as coisas: uma arqueologia das ciências humanas. 6 ed., São Paulo: Martins Fontes, 1992. SOAR FILHO, Ercy. Para que terapia?: estudo interdisciplinar sobre o self contemporâneo. Florianópolis, 2005. Tese (Doutorado Interdisciplinar), Universidade Federal de Santa Catarina, Centro de Filosofia e Ciências Humanas. |
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| Florianópolis - Santa Catarina - Terapia familiar, casal e individual - | |