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Filhos durante a separação

Antes da separação os filhos presenciam incontáveis brigas dos pais e após a separação os pais tendem a seduzir e/ou superproteger. Geralmente os pais, individualmente, reconhecem que tais medidas não são satisfatórias e que devido a própria separação não possuem forças e/ou condições para adotar outras medidas. Presos a um ciclo vicioso os pais acabam por arrolar as crianças em suas impossibilidades de gerarem outras alternativas. Nestes casos as crianças acabam sendo utilizadas como extensão das brigas e como armas para ferir o outro. No caso de incremento destas atuações medidas externas, mais efetivas, devem ser tomadas no sentido de preservar as crianças.

Uma das características da fase de conflitos anterior a separação, é a desconfirmação das percepções da criança que assiste – de camarote – as brigas e um pouco depois ouve de um dos pais dizer: não foi nada, vai dormir. Independentemente da possibilidade de separação os pais devem saber como comunicar aos filhos os acontecimentos e procurarem ajuda e/ou meios para que cessem os conflitos e brigas. Como na letra de uma música “o silêncio grita”, para a criança a imaginação é pior do que a revelação da verdade. A imaginação dos filhos sobre a ruptura do casal os fazem sofrer mais do que os fatos verdadeiramente dialogados. É mais fácil, para eles confiarem e terem tranqüilidade se forem respeitados em seus direitos de saber o que está acontecendo. Este diálogo juntamente com as planificações da continuidade dos cuidados, de ambos os pais, é fundamental para que os filhos não fiquem emaranhados no processo de separação / divórcio.

No conflito do ex-casal é como se cada qual dissesse:

"Eu sou responsável e, portanto digno de confiança, como demonstra minha história; já o outro é irresponsável, como demonstra sua história, que eu relatei, e, portanto não é digno de confiança, sendo até mesmo a causa do mal passado, presente, e futuro dos meus filhos". Assim começa uma disputa massacrante, à luz de um escopo nobre, que é a sanidade e bem-estar da prole, ... A urgência é concretizada na dramatização ... 'O meu filho deixou de comer, e quando come vomita ...' ... Saem a campo as famílias de origem. A batalha estende-se. ... O dossiê vai engrossando ... (SACCU; MONTINARI, 1995, p. 185). 


As crianças e os jovens apresentam muitas condições e recursos de saírem íntegros dos conflitos da separação. Em muitas situações os pais apresentam mais dificuldade para concretizar uma separação saudável e administrar a vida pós-separação, o que acaba por dar continuidade ao envolvimento dos filhos. De uma forma ou de outra os filhos percebem os conflitos, do casal ou ex-casal, não lhes é salutar e muito freqüentemente relatam o alívio quando a separação se consuma e as brigas cessam.

Fazer com que os filhos participem das mudanças, quando em "clima" tranqüilo pode ser ótimo e quando em "clima" tumultuado pelo menos auxilia para diminuir as fantasias ou serem pegas de surpresa. O limite do tumulto é a violência física e/ou psicológica e destes extremos elas devem ser preservadas. Tais medidas não garantem a ausência de conflitos nas crianças, mas certamente ajuda a administra-los melhor seja na revelação e nos momentos de raiva, resignação, saudades e carência.

Um outro aspecto interessante a ser preservado e cultivado é a coerência e a demonstração emocional dos pais, se está triste, não tenha medo de mostrar-se e converse a respeito com a criança. É incrível a capacidade de compreensão das crianças, inclusive as muito pequenas. Converse mesmo que seu filho seja um bebê de colo, transmita a ele de forma calma o que está sentindo, tal ação gera segurança e tranqüilidade. Assim, a criança pode compreender melhor a situação e, de quebra, aprende a conversar sobre seus sentimentos e não tem sua percepção negada.


Referências bibliográficas

  

BERTHOUD, C. Filhos do coração. Taubaté: Cabral Editora Universitária, 1997.

CARTER, B.; MCGOLDRICK, M. As mudanças do ciclo de vida familiar. Porto Alegre: Artes Médicas, 1995.

OMER, Haim. Autoridade sem violência: o resgate da voz dos pais. Belo Horizonte: ArteSã, 2002.

SACCU, Carmine; MONTINARI, Giovana. As crianças, pequenos Ulisses entre Cila e Caribde. In: ANDOLFI, Maurizio. O casal em crise. 2 ed., São Paulo: Summus, 1995.

SLUZKI, C.E. A rede social na prática sistêmica. São Paulo: Casa do Psicólogo, 1997.

ZAGURY, Tania. Limites sem trauma: construindo cidadãos. Rio de Janeiro: Record, 2004.


 

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